segunda-feira, dezembro 22, 2008

O relógio da vida


Quem pode controlar o tempo, que é o relógio da vida? Com certeza ninguém conhece alguém capaz disso, não em nossa vida terrena. Somos capazes de controlar e mudar qualquer coisa a qualquer hora, é só você querer e usar todas as suas forças para que o que você quer que mude, mude de verdade.
Pode levar horas, dias ou meses, dependendo do tamanho da mudança até anos podem se passar sem que nada ocorra, mas um dia a mudança acontece. Podemos tentar parar uma onda com as mãos, mas o tempo faz com que ela passe por nós sem que consigamos parar sequer uma gota. Podemos tentar parar uma música apertando o pause, mas o som em nossa volta não pára porque o tempo assim não o deixa. Podemos tentar sentar, parar e ficar imóvel, mas o tempo não deixa as coisas em nossa volta pararem. Podemos tentar parar numa idade, mas a força do tempo é tão grande que as rugas aparecem, o cabelo fica branco, a voz embaraça, os sentidos começam a ir e as memórias aos poucos a sumir.
Podemos tentar parar um momento feliz tirando uma foto, mas após o flash o tempo toma o seu lugar e tudo volta ao normal. Podemos tentar guardar todo o dinheiro possível, porém um dia em algo inútil vamos gastar e o tempo vai se apoderar dele. Podemos construir mansões, casebres, muralhas, não importa o tamanho, pois o tempo é como a onda do mar, que aos poucos leva o castelo construído na areia da praia.
Por isso há tempo pra tudo. Há o tempo de plantar e o tempo de colher. Há o tempo de nascer, crescer e morrer. Há o tempo de aprender a falar, de brincar, estudar e trabalhar, e também de descansar. Há o tempo de paquerar, ficar, namorar, ficar de novo, namorar de novo e por fim casar, ou ficar solteiro para o resto da vida. Mas se você casar, haverá o tempo de assumir responsabilidades, de dar muito amor e carinho para sua família, e haverá o tempo em que você vai receber também. Haverá o tempo em que seus filhos nascerão, crescerão e te verão ficar velho. Há o tempo de errar para aprender a acertar, de acertar para poder crescer, e principalmente de perdoar para aprender o que é amar.
Há tempo para tudo na vida, principalmente para o amor. Por isso, não deixe o tempo passar para dizer a quem você realmente ama, que você a ama. Não deixe o tempo passar sem que você também demonstre esse amor, pois o amor não é feito só de palavras e sim de atitudes, e é nos menores detalhes e nas mais simples atitudes que ele acontece e se transforma num grande sentimento. Não deixe que ao fim de um longo e cansativo dia de trabalho o amor se apague, não importa o que você teve que escutar, leve flores para sua esposa, namorada ou pra sua mãe. Leve a barra de chocolate, o vinho preferido de seu marido, pai ou filho. Leve um abraço àquele amigo que você não vê há anos, ao seu avô que mora no campo, aos seus tios e primos no churrasco de domingo e ao seu vizinho que você só vê no dia de colocar o lixo pra fora. Leve sempre um sorriso no rosto e um aperto de mão firme e sincero, pois você com certeza receberá tudo de volta e com maior intensidade.
Leve tudo o que puder do mundo exterior para seu mundo interior, e que tudo o que levar faça de você uma pessoa melhor, mais compreensiva, mais paciente, mais saudável, mais firme, mais amorosa e mais consciente. Enfim, você pode parar o que quiser, o que bem entender na hora que te der na "telha", mas a única coisa que não podemos parar é o relógio da vida, que comanda o tempo. O tempo corre atrás de todos nós, uns ele pega primeiro e outros depois.
Então (clichê), não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, porque amanhã pode ser tarde demais. Quando e quem será o próximo que o tempo irá escolher, ninguém tem capacidade de saber. Por isso faça o amor acontecer. Por que ficar enrolando se estamos por esse mundo só de passagem?! Sinta o amor, transmita o amor, demonstre o amor e receba o amor sem a vergonha de ser feliz. Grite aos quatro ventos "EU TE AMO" para quem você desejar, pois num simples fechar de olhos o amanhã pode não chegar.

MORFOLOGIA EM PANE


Começam mudando o nome: Monte Pascoal, Ilha de Vera Cruz, Terras de Santa Cruz, Nova Lusitânia, Cabrália... Aí mudam o sistema político, a organização social, o destino das árvores, o fuso horário, a língua! Guarani era uma língua legal sabe, Tupi é lindo! Tem origem Celta e dizem que até Fenícia! Mas história não vem ao caso, talvez ao ocaso. Gramática é a questão.
Eu estudei os verbos de ligação, decorei a regência verbal, e tenho as regras de acentuação martelando minha memória de todos os jeitos possíveis! Fiz musiquinha, esquema de cores, enumeração, e todas as técnicas possíveis e imagináveis de memorização. Portanto, estão bem gravadas aqui (ocupando o espaço de um poema talvez).
Agora, depois daquela balela toda de independência, vem de novo um português me dizer pra tirar o acento da feiúra? Tirar a trema da lingüiça? E "para pôr", vai ser "pára por" ou ainda "para por"?! (Se é diferencial o acento, está lá justamente para diferenciar). Hoje são os acentos das palavras. Daqui uns dias são os assentos da ABL - que ao contrário do que o título "imortais" sugere, deixam suas cadeiras sim, deixam também os nomes, mas apenas quando saem da vida... Mudar regras não é bem assim. Não dá pra simplesmente substituir sem deixar resquícios, sem causar choque e confusão. É como se, partindo de hoje, todos devessem ter cabelos compridos. Levará tempo para deixar crescer, causará desagrado (principalmente aos homens, que teriam que conviver com o "cabelo de dia de chuva"), e surgiria resistência.
É claro que as regras e leis devem adaptar-se ao seu tempo sócio-histórico; mas as palavras, coitadas, de tão usadas se tornaram pedras, muralhas, carimbos. Significados tão atrelados aos sentimentos de tantos escritores que seria impossível idéia significar ideia.

SEM MEDO


Pra quê temer?
Viva, apenas desfrute.
Todos nascemos já com a sabedoria do fim

Não viva por esperar as cortinas se fecharem
Viva para o momento inesperado.
Aproveite!

Morra... de tanto gosto, de tantos risos
De tantos beijos, de tantos amores.
Contemple! Deseje! Sinta a vida.

Perceba o silêncio... note seu corpo...
Já parou para se admirar?
Faça tudo o que tiver vontade hoje!
Seu momento é agora.
Não tema.
Apenas viva sem esperar acabar...

DÉJÀ VU


O começo, o fim e o recomeço.
Novas idéias, conceitos e atitudes.
O renascimento de si próprio.
A reconstrução do que foi partido.
E o fim do que foi esquecido.
A dúvida e novas incertezas.
Ressurgem velhos e criam-se desafios
O início de outro de nós
Ou talvez do mesmo
Carregando o aprendizado
De novas cicatrizes.
A fé antes por muitas vezes
Colocada a prova de sua real existência.
Passa a ressurgir em pequenos flashes
Em pequenas gotas, grãos e porções.
As melodias do dia-a-dia
Antes composta em bemóis
Ganham novos sustenidos.
Os aplausos novamente são ouvidos
E nesse show que escrevemos da nossa vida
Temos a plena convicção de que
O espetáculo nunca pode parar.

Maquiagem


Por favor. Se você tem um pouco de tinta me empresta? Pode ser tinta a óleo, esmalte, epóxi, tanto faz. Até de aquarela pode ser. Só queria um pouco de tinta emprestada, pra eu poder colorir. Não sei pintar direito, mas improviso, dou um jeito. Porque do jeito que está não dá mais!
As paredes até que estão bonitas, quem olha não reclama. Mas o interior está todo descascado, tem rachaduras por todo canto. Dá para ver o bolor que está se formando e corre de cima para baixo. Tem cupim no rodapé e traças na parede.
Me empresta a tinta para eu pintar? Pode ser tinta a óleo, esmalte, epóxi, tanto faz. Até de aquarela pode ser. Quem sabe eu arrisque uns desenhos, sei lá. Eu conheço algumas pessoas que sabem pintar. Já avisei a elas que deixo a porta aberta, se quiserem ajudar. Não, melhor. Que batam na porta e eu deixo entrar.
Engraçado. A casa dos outros eu sei pintar. Mas na minha própria eu deixo acizentar. Por fora não, por fora eu sei cuidar.
Então, me empresta um pouco de tinta? Senão daqui a pouco nem eu quero entrar.

Prosopopéia


Era uma vez, uma mão. Andava pra lá e pra cá sempre presa a um braço muitas vezes maior. Não gostava daquilo, queria mesmo a tal liberdade, mas por pura preguiça decidiu que junto dele estava confortável, então ficaria ali mesmo. Assim não iria se cansar. Nem arriscar. Ficou, pois, colada com o braço. Perambulando pelo mundo afora, sem direção alguma ela ia. E pensando em algum lugar melhor. Pensando se esse lugar existia. Foi então, num dia de frio e sol de outono, a mão passeava pelas ruas - grudada no braço - quando de repente (explosão) o braço se descuida e ela bate em uma mão feminina. Bem cuidada. Parecia uma daquelas balas que se vende junto com marshmallow, dava vontade de morder, aquela danada! Deu uma vontade de trombar de novo com ela. Mas como? No meio de tantas mãozinhas pequeninas, como ia achar aquela? Não precisou nem estalar os dedos. No outro dia estava lá ela. E no outro também. Só então resolveu tocá-la. Deixar uma colada na outra, como se tivesse medindo qual a maior. E não é que combinava!?

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Por uma vida offline


Num afã de globalização indistinta e progressiva, nos vimos no direito/obrigação de criar novos paradigmas, novas formas de comunicação. Neste contexto de globalismo, surge a Internet, criada para dar suporte de dados e informações ao exército americano (já não era muito nobre). A partir desta rede, que se diz mundial de computadores, vieram algumas ferramentas como o correio eletrônico, os softwares de mensagens instantâneas e, por fim, as comunidades vituais. Sob o aspecto democrático destas ferramentas muito já foi dito, tanto por usuários, entusiasmados pelo volume de dados disponíveis na rede, quanto por teóricos da globalização, se assim podemos os designar.
A idéia de a Internet nos ligar aos mais distantes locais da Terra nos é embalada e vendida pelos grandes portais como panacéia. Não é bem assim. Quero observar um movimento (não sei se é loucura minha) que tenho achado estranho e perverso, causado pela ascenção destas ferramentas, das quais tentarei me ater às comunidades virtuais, a exemplo do Orkut, e aos softwares de mensagens instantâneas, como o MSN que, a meu ver, alteram nossas relações, nossa forma de lidar com a vida e nosso comportamento. Sobre as comunidades virtuais como My Space, Orkut e similares farei algumas considerações que me puseram em estado de atenção. Em primeiro lugar, sinto que estas comunidades virtuais, em tese democráticas, desagregam. Tornam as relações dos homens mais prolixas, promíscuas e distantes. Reconheço que a relação entre alguém que tem um amigo ou familiar distantes, num outro estado, cidade ou região é facilitada pelas comunidades virtuais.
O que, entretanto, não substitui a relação de olhar, rosto a rosto. Esta mesma facilidade tornou nossas relações mais preguiçosas, sob a ameaça de termos relações mais "intensas" no mundo virual, já que podemos conversar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Não concordo em conversar com um vizinho pela Internet. È desumano. O computador não dá conta dos gestos faciais que fazemos. A conversa é empobrecida. Também não concordo com a expressão mundo virtual. Por mundo, entende-se o conjunto de tudo, espaço onde as relações acontecem, onde a vida se permite. O que, definitivamente, não é o caso do virtual. Não se esgotam as possibilidades de relações numa comunidade virtual. O contato corpóreo, para ser mais explícito, não pode ser deixado de lado. Parece-me que a globalização, via Internet, é hipócrita. Não é possível que possamos trocar uma boa conversa com um amigo por um perfil do Orkut. Mas as grandes corporações da comunicação insistem em vender a idéia das relações ilimitadas. Por este, assim chamado, mundo virtual. È estranha também a idéia dos softwares de mensagens instantêneas, por excelência o MSN, que é o mais massivo.
Usarei novamente o exemplo de uma boa conversa com um amigo, num bar, bebendo uma boa cerveja ou mesmo um café. As atenções, em programas como o MSN, são geralmente dispersas. Chega-se ao ponto de conversarmos com nove, dez usuários ao mesmo tempo. Em se tratando de um bom diálogo com um amigo, não parece razoável que você deixe de prestar atenção no que este amigo diz e virar-se a uma outra conversa, num tema completamente diferente. Ilustrando. Estou teclando com Rafael, meu amigo, e estamos falando sobre o fatídico jogo entre São Paulo x Flamengo. Teclo também com Felipe, um outro amigo, mas desta vez o tema são as músicas que preferimos. Há ainda a Èrica, que me faz confidências sobre seus casos amorosos. Uma mistura nada digerível. Some-se a isso o fato de eles também estarem teclando com outros. Isto, para mim, não é diálogo, e menos conversa. È, sim, poluição comunicacional, desinformação em massa. Preocupa-me o que fazemos na Internet. Não sou filósofo, poeta, padre ou etc. Mas qual a pertinência de um veículo depositório de abraços, te adoros, te amos, como MSN, Orkut e outros do tipo? São abraços que não abraçam, não confortam. Quanto à profusão de 'eu te amos' e 'eu te adoros', ou a relação é pobre, ou, em caso mais remoto, o amor se alastrou. Os fatos, quaisquer dele, jornalísticos ou não, dizem o contrário.
O amor não é a vedete do mundo contemporâneo. Outro ponto. Não me é concebível um comportamento no real e outro no virtual. Será que existem múltiplas personalidades e nós, a depender de nosso humor, escolhemos uma personalidade diferente a cada dia como se estivéssemos numa feira de mercadorias ou mesmo na bolsa de valores? Estaríamos nos transformando numa commodity? Soa estranho tudo isso. Quero, entretanto, deixar claro que não estou fora deste movimento e também contribuo para esta poluição que é a Internet. Sou, também, filho das relações criadas pela Internet. Enfim, devemos repensar nossas relações para com a Internet e com os internautas. Se o apedrejamento não é permitido em praça pública, Também não o é na Internet. O racismo, o desrespeito, a selvageria, a pedofilia, a invasão de privacidade - via Google Earth - também não são. Não podemos agira como se na Internet não existissem educação e respeito. Do que jeito que está, a Internet intensifica a má educação do homem. Não podemos esquecer o que é, de fato, a Internet: uma mercadoria, não um mundo.
Há força de trabalho investida no processo de produção de dados e informações online. Não podemos nos esquecer, sob o risco de trocar a parte pelo todo, uma amizade pelo perfil do Orkut, realidades por virtualidades, inimizades, banalidades. Fixemos: a Internet é apenas uma ferramenta. Tornada global, mundial, verdade absoluta, ela nos será alienante. Será, apenas, uma promessa de democracia e que, na verdade, é esperteza dos que têm o poder, pois no 'mundo' virtual não se alteram a estrutura social, as desigualdades. A revolta dos homens contra as situações de injustiça não pode ser online. Nossa linha é o real. Não há uma segunda vida, um Second Life. Afinal, para que lutamos?

RAROS OU LOUCOS?


Raros, por que loucos? Louco, assim como dizia o velho poeta, "é quem me diz e não é feliz". De fato, a loucura está muito longe de ser definida. Alguns peritos até a decifram, contudo, não adianta tentarmos decifrar o indecifrável. Loucos são os que não sabem o que são. Talvez não saibam, porque são que não são. Enquanto são, loucos não serão, até mesmo porque sabedores do que são, dificilmente dirão um não. Não à vida. Não à angústia. Não ao sofrimento. E nessa loucura da vida, espero que não deixemos de simplesmente ser.

SOBRE O QUE FINJO SER


Todo dia é igual de um jeito diferente; visto minha máscara e passo a interpretar papéis. Cada dia é um... Há dias em que sou um déspota ou um assassino em potencial; há outros em que finjo ser Deus, às vezes um reles mortal. Sou um romântico apaixonado, um poeta indiferente ou um ausente enfastiado; há dias em que canso-me de ser... De ser correto, ser objeto; de ser o que não sou; de sonhar, planejar, fracassar e sonhar... Mas um dia vou escolher quem serei; talvez o azul ou o vermelho; a luz, o espelho... Talvez seja o todo ou a parte, o sagrado, o profano, o popular, o erudito, o palestino, o judeu.
Talvez eu deseje variar e pra variar um pouco talvez eu prefira ser eu.

MEU PERSONAGEM


O teatro é mágico
A magia é teatral
O real se desfaz num círculo
De um circo musical
Te leva, te transporta pra longe do mundo
Bem no fundo, pra perto do seu Eu verdadeiro
Inteiro ao encontro consigo mesmo
A esmo vagando sem paradeiro
È uma viagem à felicidade
Uma cidade de sonhos feitos
Efeitos de luz, de cor e de arte
Encarte de palhaços perfeitos
Bonecas deslizam em nuvens imaginárias
Hilárias traquinagens se desenrolam
Se enrolam luas e luares
Em lugares imaginários ou não
A liberdade finalmente se torna real
Real e mente se confundem
Se fundem dentro do Teatro Mágico
Nostálgico como o céu e as nuvens
Eu mudei, me tornei outro
Que outrora era eu fantasiado
Aliviado por agora ser o verdadeiro
Inteiro como se era esperado
Ao sair de casa me fantasiei de palhaço
Acho que no compasso dos que me seguiam
Surgiam cores, narizes e pinturas
Posturas de personagens que sorriam
Eu achando que estava fantasiado
Extasiado esperando o cair do pano
Sem planos me descobri sendo um dos raros
Que claro, está fantasiado apenas quando é humano...

Coleção do que eu não tenho


Que eu não tenha o intento de uma desistência
Da tal tentativa de mudar o mundo
Eu não tenho a chave de todas as portas
Nem mesmo o mapa de todas as rotas
Não tenho resposta às questôes pendentes
Nem todo o tempo que esperei antes
Já não tenho a surpresa de todos os fatos
E nem os momentos de todas as fotos.
Não tenho os mistérios de certos segredos
Nem mais tantos medos dentre tantos medos.
Não tenho o regresso de onde não volto
Nem mesmo o ingresso da cena que eu era
Nem mesmo quimera da vida que escolto
Não tenho mais...
Sonhos quase reais, risos quase ideais.
Palavras ditas, não tenho
Nem venho voltar às palavras que foram
Não tenho o que eu fui, se era eu ou seria
Aliás, mesmo agora, nem mais tenho a hora.
Gênio e primeiro que adentra a poesia
Eu não tenho a chave de todas as portas
E é esse não ter que limita e recria
Em mim toda luta que muito me importa,
Em mim toda luta que eu nunca teria
Sem nãos, sem não-teres, sem cara na porta
Que encara o "e se fosse, o que eu faria?"
Eu não tenho por que não tentar...
E o que ainda tenho sei que não teria
Sem que tivesse tido tudo que me desafia.

O ser sem identidade (ou A coisa)


A sociedade contemporânea tornou-se o que Carlos Drummond de Andrade chama(ria) de Sociedade-Coisa, ou A Grande Coisa, se olhasse para ela e contemplasse a falta de identidade que a tomou - ou a domou. O mundo se tornou o reflexo, o produto da mais brilhante fábrica de estereótipos já criada: a mídia. Seja através da televisão, da internet, de revistas ou de qualquer outro meio de informação, a mídia está sempre gritando e ditando suas mais novas tendências e nós, como bons súditos, nos curvamos a ela.
Há não muito tempo atrás, a própria televisão exibiu o mais belo retrato de sua vergonha: em uma propaganda comercial, podia-se ver e ouvir, por trinta segundos, um homem - sem rosto -, com apenas um alto-falante em mãos falando ao mundo o que, agora era melhor para a vida - o engraçado é que essa receita mudou várias vezes, durante esses trinta segundos, e mais engraçado era a conclusão do vídeo: "o mundo está muito igual, compra meu suco e seja feliz."
Experimente passar uma tarde no shopping, e verá como garotas raquíticas se destroem para estarem iguais à modelo da revista, ou como garotos se furam, pintam-se e deixam-se corromper para serem iguais a, por exemplo, seus ídolos do rock. Ir ao shopping é como visitar um zoológico de uma espécie em ascenção: o ser-sem-identidade.
O ser-sem-identidade já não pensa: pensa que pensa. Ele se deixa levar pelas ondas de influência da mídia e torna-se um fantoche preso a uma única linha solitária. A linha da manipulação. Hoje meios de informação deixaram a prioridade inata de sua existência - informar -, para tornarem-se uma geradora monstruosa de Coisas.
Mas ainda há esperança. Quando as Coisas aprenderem a pensar, raciocinar e criticar por conta própria, terá início a Revolução das Coisas! Uma epopéia digna de Huxley e sua Ilha. Quando as Coisas aprenderem a ter o Eu individual e original, talvez a mídia volte ao seu lugar, e passe só a informar.

Quintal de Ilusões


As tábuas, transformadas em parede, cercavam de harmonia os envelhecidos aposentos daquela moradia perdida em meio ao mato. O terraço de terra batida era o quintal das brincadeiras de um bando de crianças de pé no chão. Mesmo na chuva não saiam de lá, sem pensar no futuro, sem saber se teriam futuro.
Estava longe demais, só daqui uns cem anos. Todas as luzes dos carros iluminavam as paredes à noite, mas o cheiro de querosene do lampião lembrava as velhas casas do interior. Nem parecia que estava fincada bem no meio da cidade, contrastando com coberturas de frente ao esgoto a céu aberto. Cada vez que passava ali por perto observava os pequenos correndo de um lado a outro sem destino certo. Se temos todos um destino, qual seria? Talvez façamos nós mesmos, talvez escrevamos nossa história...
As gargalhadas, ouvidas ao longe, não combinavam com o cenário. Mas quando crianças não atuamos, portanto não há cenários perfeitos. Estamos despidos de máscaras e mágoas. Os ressentimentos duram só alguns segundos, parecem coisas sem importância. Toda simplicidade da vida reside numa brincadeira de criança. Suas incansáveis pernas parecem querer alcançar um mundo imaginário. Seus corpos parecem imunes ao frio, mas, muito sensíveis, não resistem à dor.
Ficava por horas observando o quicar da bola de um lado ao outro. Não via o tempo passar quando aquele círculo de borracha cheio de ar tornava-se o mundo de algumas pequeninas pessoas. Brigavam por ela, as vezes literalmente.
Cada avião que passava despertava a atenção. Recebendo acenos efusivos ele passava incólume, sem dar muita atenção a ninguém. Via lá de cima formiguinhas correndo pra lá e pra cá sem destino certo.
Sentado, da calçada via aquela casinha sem cor abrigando gente de muitos sonhos e pouca vida. Via gente sorrindo e pedindo de volta somente o sorriso. Brigando por um prato de comida.
O mato tremia com o vento trazendo o cheiro doce de chuva. Os pneus esmagavam o asfalto negro e quente em brasa. Os dias iam passando como o trem que seguia seu rumo sobre a ponte, marcando uma rotina insensata a cada badalar do sino. Todo aquele quintal era o pequeno mundo, que para os pequenos, era imenso, quase infinito. Ali brigavam, faziam as pazes, rolavam no chão, chutavam bola, brincavam, brigavam...
No princípio, para mim aquelas crianças não tinham rosto. Todas elas tinham as mesmas feições, as mesmas roupas rotas. Aqueles meninos não tinham voz. Todas as vozes gritavam em uníssono sons indecifráveis. Eram vozes pedindo ouvidos, pedindo ao menos atenção.
Toda aquela rotina virara minha própria rotina. Ao observá-las sentia-me integrante daquele mundo de risadas.
As marcas daquelas histórias estavam sendo deixadas ali naquele chão. Naquela terra úmida e fétida carregada de feridas expostas a olho nú.
O cair da tarde tingia de cores primárias aquele barraco velho, remendado de fé. O cheiro de café fazia as tardes mais alegres e trazia o riso ao rosto da mãe envelhecida, amargurada, sofrida...
O colorido das roupas tremulava nos varais esticados, e o vento quente balançava a poeira no ar, silenciava as buzinas desesperadas.
Por várias vezes suspirei a dor daqueles meninos como se fora minha. Estive ali em frente muitos dias. Dias de sol, dias de chuva... Mesmo assaltado pela amargura estive lá. Desesperado por não poder ajudar. Envergonhado por não querer ajudar. Mas passavam os dias e todos os dias são iguais. São a rotina do mesmo sol, as fases da mesma lua, as mesmas promessas, as mesmas decepções, os mesmos sorrisos. Em todos os dias que lá estive vi sonhos quebrarem-se, vi flores murcharem-se, vi histórias acabarem-se.
As noites eram tristonhas, ouvia-se somente o barulho dos grilos em meio ao mato do quintal. A luz amarela do lampião clareava as vozes que vibravam dentro das frestas das paredes. No meio do mato a solidão daquela casa dormia no medo da madrugada. Os sonhos pediam passagem e desfiavam suas contas de causos e histórias.
Tanta gente tinha ali e tão pouco se tinha. A indiferença de todos parecia não os afligir. Pareciam até isolados num outro mundo, cheio de esperanças e de fé. O muro, como meu encosto, fora por muito tempo meu parceiro expectador daquele espetáculo diário de felicidade.
Não me lembro bem dos motivos que me levaram a estacionar o corpo defronte àquela casa. Talvez num momento de angústia ou num daqueles dias em que estamos com a alma enferma.
Porém, via agora a fantasia da vida em cores magistrais. O sorriso gratuito num gesto simples e honesto. Todo o resto perdera a cor. Nesse quadro via-se só as luzes claras acenderem-se num brilho ofuscante. Era a mágica do cotidiano dobrando-se em reverência à majestade da miséria.
Ali ninguém chorava a dor, muito menos o esquecimento, o descaso. Riam-se muito e de tudo. Aborreciam-se com os olhares piedosos e os pensamentos que os pré-julgavam.
Abstraí-me de pensamentos ruidosos e deitei os olhos sobre aquelas crianças. Como se não houvesse nada mais no mundo transformei aquele quintal na minha diversão favorita. Era meu entretenimento diário, fazendo-me rir, fazendo-me chorar. Criei cada história, cada personagem, cada cenário... Tinha a menina de tranças, a quem eu chamava de Bia. Era sorridente, mas muito autoritária. Tinha uns sete anos e odiava ser contrariada. Chorava sempre pelos outros meninos fazerem troça dela. Seus olhos amendoados cintilavam o brilho da manhã. Passava horas manipulando suas bonecas simulando conversações, criando mundos imaginários. Preferia brincar sozinha, longe dos outros meninos. Empertigada, desfilava seus cachos pelo quintal com um certo ar de autoridade. Certa vez tive a impressão de percebê-la devolver-me um sorriso num rápido gesto. Senti disparar o coração, não queria ser notado. Esquivei-me por detrás do muro, observando-a por uma pequena fresta entre os tijolos. Não mais a vi mirar-me. Talvez tenha sido uma leve impressão, talvez uma ilusão...
Imaginava quais seriam seus sonhos de menina. Talvez nem tivesse idéia dos horrores da vida ou dos temores dos homens. Seus movimentos delicados desfilavam no ar um bailado simplório e cheio de minúcias. Pisava com frescor a rijeza do chão sujo e empoeirado.
Enquanto a bola corria de um lado a outro ela continuava ali sentada imersa no seu mundo, quase perdendo a noção de tempo.
Toda minha piedade por aquelas crianças prendia meus olhos toda tarde, durante horas. E numa dessas tardes chuvosas, cinzentas, quase sem vida, vi a bola das crianças pulando em minha direção. Vinha calmamente, sem pressa. Vi o tempo paralisar, as gotas da chuva mansamente molharem o asfalto e os carros rodarem parecendo querer parar.
Fiquei algum tempo ali imóvel, criando coragem para devolvê-la aos meninos. Minhas pernas pesaram. Pensei no sorriso de Bia e a vi caminhando em minha direção para apanhar a bola. Seu sorriso era farto, cheio de candura. Seus cachos balançavam e vi seu corpo flutuando pisando leve no chão molhado. Incauta, correu na aspereza do asfalto esburacado.
O barulho me tirou do transe e jogou-me novamente na parede da realidade. Vi o céu chorar sobre o pequenino corpo enrubescido de dor, sorrindo um riso de criança.